quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ



COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ

 

Encarar essa imensa demarcação em branco e não saber como proceder é assustador. Cria-se uma atmosfera de suspense, como se estivesse sendo observado por milhões que, ansiosamente, aguardam um desfecho, um último ato, algo que os permita, enfim, relaxar os músculos da face que a muito contraem-se em total estado de alerta. Foi-se o tempo que, com a simplicidade de uma criança, postava-me à frente do computador e, como se estivesse a conversar com amigos, discorria sobre treinos, o acaso, pensamentos utópicos, treinos, treinos...

Irônico ver tamanho constrangimento em digitar poucas palavras, quase sem saber como o fazer, refém de um total destreino com o hábito da escrita, justamente quando retomo a funcionalidade do blog para, pasmem, confirmar o retorno aos treinos, à rotina louca que me preencheu por um longo e delicioso semestre, deixado de lado por uma causa maior, mas que agora consigo trazê-la de volta. Sim, a partir de amanhã (20.12) retornamos aos treinos rumo ao Ironman 2013.

Durante meu período de aulas evitava fazer atividade física. Muitos discorriam sobre a importância da atividade física para espairecer, de um momento de relaxamento fora do ambiente de estudo, que uma caminhada era bem vinda. Limitava-me a dispensar a proposta. Como explicar que, quando saía para correr, já partia pensando quando seria o próximo treino, onde faria o treino de bike, em qual piscina conseguiria nadar, quanto tempo teria da data da prova até o Iron, se conseguiria me preparar direito para as duas provas... Não cabia tentar descrever o desespero que escondia sob pilhas de livros e horas de estudo. Impossível sair para “fazer uma caminhada” quando se está inscrito para um IM e totalmente comprometido com os estudos.

Prometi que, assim que acabassem as aulas, reorganizaria meus horários e saberia se o Ironman 2013 era uma realidade ou um sonho distante. Terminadas ontem, hoje já havia conseguido autorização para treinar no Parque Aquático de Goiânia. Tinha agora 9 horas de estudo a serem conciliadas com uma planilha de treino. Loucura? Lembrei-me de todos os dias que levantava às 4 horas da manhã para nadar, pegava a rodovia Dom Pedro de bicicleta e, ao chegar na Clip sabia que ganhara mais que se tivesse optado por ficar dormindo. Trabalhava 8 horas, dava personal, fazia minha segunda sessão de treino e ainda tinha tempo de sobra. Pensei nas horas eternas de pedal pela Campinas-Mogi, bem acompanhado, sozinho, frio, vento, chuva, Sol... Busquei relatos de tantos outros que acordam ainda mais cedo, fazem seus treinos para conseguir tomar com a família, trabalham normalmente e ainda se destacam no esporte. Não me parecia absurdo!
Tentei unir a experiência do triatlon com as da minha atual realidade: ciclos de estudo diários de 8 a 10 horas, abdicação da vida social, restrição aos prazeres mundanos, privações momentâneas para colher frutos no futuro. Percebi que cada uma dessas “tribos”, se ouvisse os relatos da outra, se espantaria, acharia um exagero pedalar 180 km ou deixar de sair por meses, talvez não se vissem na pele do outro. Vejo “100%” nas ações de ambos os lados, é transpiração pura, é uma luta constante contra as fraquezas da carne, as inúmeras vontades de jogar a bicicleta na beira da estrada e pegar uma carona, de queimar os livros e arranjar um emprego de gente normal, de suas pernas tentarem te fazer sentar na sarjeta e você permanecer em movimento. E por que continuar? Para ver, após horas debruçado sobre um exercício, surgir a resposta certa, avistar o pórtico de chegada, ver seu nome na lista dos aprovados...Percebi que o que me deixava ancioso era o ócio entre uma matéria estudada e outra, que minha carência justificava-se na ausência de endorfina. Para conseguir otimizar meu projeto de estudo, precisava ocupar o resto do tempo que ainda tinha com algo que exige disciplina, concentração, perseverança e proporciona prazeres imensuráveis. O "casamento" estudo/treinos ainda não pode ser avaliado, mas já gera um espectativa boa!

Para o primeiro Ironman tive um suporte de primeira: frequentei endocrinologista, nutricionista, tive dos técnicos maravilhosos, suplementei, me equipei, fiz amigos, parceiros de treino, irmãos de luta! Agora será diferente. Acabaram as regalias: nada de endocrinologista, nutricionista, infelizmente não poderei contar com meu grande mestre e amigo Marcio Lazari para a bike e corrida, mas farei bom proveito da nossa preparação do ano passado. Malto que nada, agora é na rapadura, whey protein virou clara de ovo( o caldo de cana e o emulsão continuam!!!). Agora é encarar horas e horas contando azulejos, pedalando no rolo e correndo por Goiânia afora. Lembro-me de cair na piscina sozinho, cedo ainda, no frio que só campinas consegue proporcionar. Agora desfrutarei de um Sol escaldante que queima Goiânia às 11 da manhã!!! Que saudade!
Não tive dúvida: a primeira coisa que fiz ao confirmar minha volta aos treinos, e principalmente à natação, foi comunicar aos que deixei em Campinas: a turma da raia 6, cada dia mais famosos e fominhas, Letícia “Xuxu”, Matheus Zica, Muru e CIA, e meu grande amigo (e técnico eterno!!!) Samir Barel, que me deu tanta notícia boa que quase esqueci o que tinha pra falar com ele!!!! Obrigado pela força (perto e longe)! E Samir, orgulhoso demais velho!!! A boa e velha frase que fazíamos rodar no grupo continua a valer, mas agora o bicho está sobrecarregado: foca no treino e nos estudos!!! E que venha 2013!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

Flor de cerejeira


   Era pra ser apenas uma visita, uma despedida formal, um último abraço nos bons amigos. Em meio à confraternização, uma pessoa mais que especial falou-me sobre o novo projeto: tatuar uma ramo de cerejeira na lateral do torso. O que era para ser um "que legal!", acabou despertando conhecimentos da cultura oriental a muito adormecidos, levantando algumas questões e me levando a refletir sobre o momento vivido.

   Acabei não tendo a oportunidade de perguntar o porque da tatuagem. Até hoje. Acabamos nos encontrando para jantar e, enfim, questionei-a. Ela demonstrou total conhecimento na representação da feminilidade na flor de cerejeira, sua beleza e fragilidade. Estava claro toda a lenda relacionada à flor e a pessoa da princesa Sakuya, mas busquei abordar o outro lado da lenda: a devoção dos samurais. O que levava guerreiros cegamente fiéis a veneram uma flor?

     Simples: sua efemeridade. Passava-se 362 dias de espera para ter apenas três dias de beleza e esplendor. Nada representaria melhor a fragilidade da vida e a necessidade de se viver o momento. Relacionavam suas próprias vidas às das cerejeiras. Sabiam que, a qualquer momento, poderiam cair diante de um inimigo. Desenvolveram a capacidade de admirar o momento sem projeções futuras.

      Longe de ser um samurai, mas meio que flertei com a morte ultimamente. Sofri um acidente feio, com perdas materiais, mas sem consequências graves. "Tem-se um flash back de todo o passado?" Não eu! Tive sim a oportunidade de reavaliar conceitos, crenças e costumes. Caminhar pela linha tênue que separa o presente e o passado me fez sentir saudades, ter desejos, querer mais. Pude desejar rever pessoas queridas, sentir falta de velhos amigos, querer voltar no tempo, buscar mudar, viver melhor. Vi, de forma contundente, a importância de viver um dia de cada vez, mas intensamente. "Só por hoje", certo? Temi partir sem fazer aquela viagem, sem comer aquele alfajor, sem dizer "eu te amo" àquela pessoa. Me vi deixando muito por fazer, pessoas por amar e por que? Simples comodismo. 

    Por isso voltei à Campinas. Sinistro, justamente no dia da minha volta, alguém que (desculpe o clichê) guardo do lado esquerdo do peito, estar prestes a tatuar algo tão grandioso, profundo, expressivo e, ao mesmo tempo, delicado.Talvez por isso esteja relacionado à pessoa de uma mulher, por isso que tenha feito guerreiros venerar sua existência. Talvez por isso divida com a bandeira nacional a importância para a nação japonesa. Talvez por isso alguém tão bela e única esteja prestes a marcar o corpo com tal imagem. Talvez, por isso, não seja uma má ideia "pegar carona nessa cauda de cometa"  e fazer um ramo de cerejeira. 

     

terça-feira, 29 de maio de 2012

Epílogo - Parte 2: início, meio e fim!

     Logo às 3:30 da manhã estava de pé. Precisava levantar antes de todos, preparar meu café preto, comer meu mamão...Lá pelas 4 da matina a galera começou a surgiu. Pouco a pouco iam dando o ar da graça na sala, as conversas paralelas surgindo e, de repente, tínhamos até trilha sonora: Coldplay entonava "Clocks" para levantar os que ainda desacreditavam de estar de pé tão cedo.

      Nos juntamos aos demais membros da delegação campineira (Lincon Ikeda e Luis Natal) e rumamos em direção à largada. Ainda noite, madrugada fria, mas ainda sim com o céu limpíssimo, totalmente estrelado. Bom sinal! Chegamos à largada, Special Needs entregues, fila para numerar, última passagem pela bike, pneus calibrados e, já pressionados pela organização, adentramos à zona de transição para nos trocarmos.

     Vaselina por todo o corpo (não, essa piadinha não vai colar aqui!), roupa de borracha, óculos, touca, água e um gel de carbo. Estávamos prontos, todos vestiam suas armaduras, seus capacetes verdes reluziam no ambiente e, em um mix de empolgação e foco, deixávamos em fila as tendas em direção à praia. Foi então que, ao sair a céu aberto e pisar na praia, pude contemplar tal imagem. Estaria ali o segredo para tantos pagarem 600 dólares (agora $700!!!) anos seguidos? Não sei, mas já começava a fazer sentido.



     Um pouco de tumulto para entrarmos no pórtico de largada, mas rapidamente todos já mantinham o olhar fixo no horizonte, visualizando a primeira boia, repassando a estratégia, tentando deixar os bons pensamentos fluírem. E então, como um golpe vindo do desconhecido, o transe é quebrado por um barulho ensurdecedor: uma corneta urra na silenciosa manhã de Jurerê e aqueles que até então pareciam meditar, como se ordenados por seu general, se lançam ferozmente contra o mar, dando inicio ao espetáculo. Um longo dia estava por vir.




     Duas mil pessoas ao mar. Deixei que todos se horizontalizassem, pois assim saberia o quanto tinha de espaço e por onde nadar. Caí na água, visualizei a primeira boia e comecei a natação. Logo nas primeiras braçadas, um  conselho me veio à cabeça: "acelere a braçada, sem força, para vencer a correnteza". Samir Barel havia me dito isso logo após nosso último treino. Valew Samir!!! Navegando bem, senti que progredia por entre aqueles que muitas vezes pareciam não saber para onde rumar. Contornei a primeira grande boia, alguns safanões para me livrar do bolo, segunda boia e rumamos para praia. Então o primeiro problema: não tinha claro onde deveríamos sair na praia. O referencial de navegação estava ok, mas seria ali o local por onde passaríamos? Logo descobri que não e que estava um pouco à esquerda do ponto de chegada. Consertei no nado, fiz a passagem em terra, água pra lavar a boca e água de novo. Segunda perna da prova.

      De cara ficou claro que a coisa mudara. O mar estava diferente, ondulava mais, uma corrente retinha o nado. "acelere a braçada, acelere a braçada...". Encaixando bem o nado, consegui me fazer deslocar e, novamente na muvuca, fiz o contorno da terceira boia. Poucos metros à frente e a última boia. A partir dali era voltar para terra firme. " Se for para errar, erre para esquerda". Eduardo Mariutti havia me dito pouco antes da largada. Achei meu referencial em terra e parti. A tenda do evento estava no extremo direito da praia e eu tendendo a esquerda. "Hum, não vai dar certo...". Comecei a "endireitar" o nado e, mais perto da praia, pude ver que a saída era sim na extremidade direita, justamente onde evitara ir. Consertei novamente na braçada e, ao ver a areia aparecer no fundo d'água, não me contive e dei uma boa gargalhada (ainda submerso. Em tempo de me afogar...). Corri para a praia e, em meio a uma gritaria ensurdecedora e a mente embaralhada de tanto sacudir, corri para a primeira transição.

     Pra tirar a roupa de borracha é simples, brincadeira de criança: um staff te chama e você, inocentemente, vai. Quando está bem perto ele te para e o empurra para trás, onde um coleguinha dele já está ajoelhado rente às suas pernas. Enquanto despenca, ele agarra a roupa e puxa. Antes de bater no chão, você está pronto para pegar a bike! Mentira, fora o empurrão, o resto é verdade. Muito rápido. Troquei de roupa, peguei a matula, afivelei o capacete e fui pra bike.

     Garmin no braço com apenas uma função: mensurar a frequência cardíaca. Em cima disso saberia se não estava exagerando. Um começo meio sinuoso, ruas de paralelepípedo, buracos...tenso. mas foi só pegar o asfalto e o pedal começou a fluir. Clipei na bike e mandei ver. Queria fazer uma boa primeira volta e segurar na segunda para correr bem. E fui. Fazendo bom uso de toda a estrutura da prova, completei os primeiros 90 km bem e parti pra segunda volta. Paralelepípedos, asfalto, subida do cemitério (quem veio primeiro: o cemitério ali existente ou o primeiro ciclista morto de cansaço?). Pesado, mas passou. Uma descida alucinante permitiu tirar a diferença e retomar meu ritmo. Estava muito forte. "Em quanto está minha frequência cardíaca?". Ao olhar para o meu punho, apenas o fundo do Garmin. Ele se auto destruíra sem aviso prévio. Fitei aquilo atônico, desacreditando na cena. Acabei a descida, respirei fundo, desafivelei o que restara e pinchei longe. Pronto, um problema a menos! O braço ficou até mais leve. Fiz o restante do percurso e adentrei em Jurerê para completar o pedal. Me sentia bem, sem dores musculares, bem nutrido, hidratado. Agora era hora de me divertir. Entreguei a bike, calcei o tênis, viseira e saí pra correr.

      Tinha algo muito claro: não correria em subidas. Apesar de estar me sentindo bem, estávamos falando de 42 quilômetros de corrida, distância suficiente para mudar tal condição. Conselho do mestre: "faça o simples, o que foi treinado". Parti para os primeiros 21 km, começando bem leve nos primeiros 30 minutos e soltando aos poucos. Logo no primeiro quilômetro um competidor (Marcelo, não lembro o número) puxava a perna cheio de dor. Passei por ele e lembrei que tinha comigo um spray de Salonpas. Parei de correr, tirei o spray e ofereci a ele, que sem pestanejar, aplicou em seus quadríceps. Exagerou na dose, ok. Pensei que ficaria sem, mas preferi acreditar que, se precisa, fariam o mesmo por mim. Segui em frente e, quando começava a gostar de correr, a temível subida para Canasvieiras surgiu. Avistei o Luizão logo acima que, com um pedal fortíssimo, tinha saído pra correr um pouco antes. Aproximei, comecei a andar, conversamos um pouco, voltei a correr, mas ele preferiu segurar. Parti sozinho. Mas uma subida dura, um desfiladeiro para descer, uma curva a direita e pronto: a visão do inferno. Pelo amor, uma reta tendendo ao infinito. Corri, andei, comi, bebi e nem sinal do retorno. Via-se pessoas indo e vindo, mas nunca onde invertiam o sentido. Eduardo Mariutti, Luiza Tobar, Orival, todos voltando e eu indo! Pra onde ainda não sabia. Alguns longos quilômetros depois o tão esperado retorno e, já conhecendo o caminho de volta, ficou fácil trazer o corpo pra casa. Chegamos ao pé do morro. Hora de voltar para o outro lado. Subir andando, descer correndo. Pronto, adentrei a Av. dos Búzios e rumei pra fechar a metade da corrida.

     Quase chegando, avisto Letícia e Muru. "Porra, até que enfim apareceu". Ok Muru, também estava com saudades!! Festinha rápida, uma foto que não deve ter dado certo e hora de completar os 21 km. "2:04 - bom tempo". Eram mais duas voltas de 10 km e pronto. Abri a primeira certo de que o que estava sendo feito até ali surtia efeito. Tendia a andar antes que meu corpo pedisse, mantendo-o relaxado, nunca na tensão máxima. E assim segui ao longo da volta pequena: correndo um pouco, soltando de leve, usando os postos para me hidratar e comer... sem pressa. Fechei a segunda volta e, partindo pra última, um posto de hidratação servindo sopa. "Nossa, esperei por isso o dia todo!". Peguei um copo e me deliciei com ela. Estômago forrado e espírito renovado, voltei a correr. Foi quando cruzei novamente com o Muru que, antes mesmo que eu abrisse a boca, mandou um "não fala nada porque está sobrando aí!". Percebi naquele momento que ele tinha razão. Bem disse o Dedé "o cara que fala as coisas certas na hora certa". Rumei para finalizar a corrida confiante que conseguiria me manter correndo.



     A cada posto de hidratação, um copo de sopa. Aquilo estava me jogando pra cima. Mesmo bem, preferi não forçar o ritmo antes da hora. Conduzi até o quilômetro 39, na tão rodada Avenida do Búzios. A partir dali era dois pontos: o local onde me encontrava e o pórtico de chegada, ligados por uma reta. "A minha reta". Decidi que ali seria deixada a última gota de energia. Iria acabar correndo, e bem! Apertei o passo, imprime um bom ritmo e fixei o olhar nos holofotes que estavam acima do relógio da prova. "É ali que quero estar". E fui.

     Mas o sistema é bruto e, após 11 horas de atividade ininterruptas, qualquer metro faz diferença. Comecei a achar que os quilômetros haviam espichado, que a "gasolina" iria acabar antes da chegada. Limpei minha mente de maus pensamentos, respirei fundo e continuei. 40 km, 41 km, agora não tinha mais volta, bastava chegar.

     E então, de novo, encontrei a dupla Lê e Muru. Juro, o Murilo demonstrou todo o seu fascínio pelo Iron ao longo de nossas conversas antes do grande dia (hoje te entendo meu camarada!), ma a Letícia estava numa euforia... Dava gosto de ver! Não tive dúvidas, convidei-a para chegar comigo. Cara, só quem está ali dentro para dizer o que representa receber um apoio direto, ouvir seu gritado com vontade, ver alguém torcendo por ti. Não seria possível levar a todos até a chegada. Escolhi a melhor representante da torcida Ironman. Saímos correndo juntos por um corredor humano muito estreito. Ela, de tão animada, começou a correr mais rápido que eu! Tive que pedir pinico e gritar um "segura Lê...", senão não chegaria! Adentramos o tapete azul e, bombardeado pelo mesmo holofote que me guiou até ali, fomos recepcionados por uma galera que vibra a cada competidor que por ali passa. Rumamos para o pórtico e, enfim, passamos por baixo do grande relógio. Foi como ser agraciado. O corpo fica em paz, a mente tranquiliza e, por um breve momento, não se ouve mais nada a sua volta. Você para ali, em meio a tantas outras pessoas, e consegue se ver conversando sozinho: "conseguimos!". A última olhada para cima e a pose para foto.

     


     A euforia não passa, a vontade de fazer de novo. O corpo não pede descanso, pede mais, quer mais! Pausa pra massagem, lanche rápido, troca de roupa e comemorar com os amigos. Aqueles que chegaram, os que estão por chegar, os que "apenas" torceram, todos reunidos não deixam que o evento pare, que o dia termine. Impossível explicar!

     Fica aqui meu agradecimento a todos que partilharam comigo ao longo desta Odisseia. Tivemos maus e bons momentos, mas garanto que valeram a pena e que, fácil, faria tudo de novo. Aos meus dois mestres, Marcio Lazari e Samir Barel, responsáveis pelo sorriso na foto acima. Sem vocês essa carinha estaria diferente! Aos meus compenheiros de treino e, por que não, amigos: Luizão, Felipe, Donga, Bruno Zoim, Muru, Dedé, Fernandinho, Ricciarelli, Lanaro, Natal, Lincon, Matheus, Joaozinho, Lê, toda a galera da 3Sports e Elo Consultoria; amigos do dia a dia pelo incentivo; Jorge Coli, meu mecenas, enfim, é gente pra caramba!!! É isso, agora só no próximo grande desafio. Por hora, fica a mensagem abaixo. Valew!


     

Epílogo - Parte 1: Os dias que antecederam

   Era para chegarmos às 9 horas da manhã de quinta feira, mas nos deparamos com um congestionamento monstruoso ainda no Estado de São Paulo. Quilômetros de carros e caminhões parados ao longo da estrada, sem esboçar nenhum sinal de deslocamento. Quando, enfim, conseguimos sair de tal situação, buscamos ao máximo tirar a diferença, mas não teve jeito: fomos forçados a, já às 3 horas da manhã, pararmos em Curitiba para dormir. Uma certeza: perderíamos o treino de natação daquele dia.

    Acordamos cedo, tomamos o café da manhã e continuamos nossa peregrinação. Destino final: Florianópolis. Rodávamos bem, descansados, alimentados e sempre acompanhados por um Sol maravilhosamente brilhoso. O dia estava perfeito! Chegamos perto do meio dia, fomos para praia e acompanhamos o final do treino. Entre profissionais e amadores, todos circulavam pela praia de Jurerê. Eu, boquiaberto, acompanhava tudo, tentando não perder nenhum detalhe: cada bicicleta que rodava pela Av. dos Búzios, cada atleta da elite que cruzava conosco, equipamentos... com certeza estava na Ilha da Magia!

     Almoçamos, nos instalamos em nosso QG e fomos retirar o kit na Expo Iron. Uma galera dispersa em filas aguardavam pelo atendimento. Atletas se cumprimentavam, uma infinidade de sotaques e idiomas davam sonoridade ao recinto. A empolgação vinha crescendo, uma sensação gostosa de estar ali, de poder fazer parte de um espetáculo como aquele. Hora de ser atendido.


   
     Já no balcão, um check in rápido, fotinha para registro, uma breve explicação, pulseira de identificação e a infinidade de sacolas que o Ironman exige ao longo do dia. Todo conferido, nada faltando, camiseta no tamanho certo, hora de descansar.


   


     Sexta feira: será?


     O dia começou chuvoso, carregado, não lembrando em nada o que havíamos vivenciado no dia anterior. Aos que estavam ali para fazer turismo, a estrada. Luizão (Luiz Eduardo - 1121) e eu ficamos em casa, aproveitando toda aquela água para descansar. Congresso técnico de leve, últimas dúvidas esclarecidas e voltamos para casa. A tarde foi dedicada ao ócio. O treino programado tinha ido, literalmente, por água abaixo. "O que fazer à noite?". Fácil, jantar de massas do evento!

     Chegamos ao clube por volta de sete da noite. O cheiro de molho já se alastrava pelo ambiente, a fome despertava de um sono não tão profundo e, antes mesmo de cumprimentar alguém, já estávamos com os pratos em mãos, servindo tudo que tínhamos direito. Uma verdadeira obra prima! Agora era achar onde sentar.

     Foi então que demos conta: não havia mesas vagas! Ficamos rodando pelo salão em busca de brechas. Encostamos em uma mesa e o garçom, gentilmente, tratou de limpar um pedaço da mesma e o "gringo" que ali estava se prontificou a ajudá-lo e ofereceu-nos os lugares. Sem muito charme, puxei a cadeira e começamos a jantar. A gringaiada conversando e nós comendo. Então, quando a maioria havia levantado, uma das meninas que estavam juntas nos perguntou se sabíamos quem era o gringo principal ali presente. Negando conhecimento, fomos informados que estávamos à mesa com ninguém menos que Ken Glah (procurem no Google!). O cara é só um ícone no triathlon mundial, mais nada! Enquanto tentava não morrer engasgado com a notícia, o próprio retorna à mesa e senta ao nosso lado. Que figura simpática! Sempre sorridente, pergunto se era nosso primeiro iron, contou um pouco da sua vida no esporte e, sem nenhum arrogância, disse ter feito 65 ironmans, sendo 10 no Brasil. "65 irons? Putz...". E então veio, abaixando o tom de voz e adotando um semblante mais impositivo, deu-nos um conselho: "Durmam o máximo que conseguirem de hoje até amanhã de manhã, pois o corpo funciona em ciclos de 48 horas e a noite de sábado nem é tão importante. Descansem hoje!". Amigo, nem que o maior estudioso da área desportiva baixassse ali e tentasse contradizê-lo, seria levado à sério. 65 Ironmans? Me despedi de Ken e regressei ao QG. Era hora de dormir!


Sábado: o tal do vento Sul deu as caras!

     Em meio à toda aquela água de sexta, uma"guria" nos disse que "ia passar um vento Sul e que o tempo ia limpar". Acordei sábado bem cedo, já sentindo um calor diferente. Ao sair fora da casa me deparei com um céu de um azul ofuscante, sem nenhuma nuvem. O tal vento Sul tinha realmente atropelado o mau tempo. Perfeito! tudo levava a crer que o domingo seria de tempo bom. Últimos ajustes no equipamento, checagem na bike, todas as sacolas montadas, hora de fazer o bike check in.

     Já na Expo, demos entrada, checagem geral, pose para foto, um staff para te levá-lo ao seu cavalete...o negócio funcionava bem! Posicionei a bike, entreguei minhas sacolas e fui dar uma volta pelas tendas. Tentava encontrar Letícia e Muru, que haviam chegado naquele dia, mas até nada. Rodei, rodei e nada. Já estava em processo de despedida, pegando a chave de casa para continuar meu retiro espiritual, quando vejo uma morena cheia de dentes vindo de braços abertos no meu rumo. "Querido, isso é Florianópolis!" pensei. Enfim os dois queridões surgiram!!! Social com as famílias Coelho e Ribeiro, um bate papo animado, Orival Andries e seus mascotes completando a festa... agora sim o negócio ficara animado! Um breve resumo do que se passara até ali e, inclusive com um sermão do Sr. Murilo Barizon,  parti para casa. Reta final. Deitaria apenas mais uma vez. A próxima levantada da cama seria para encarar meu primeiro Ironman. Fechei os olhos e deixei que o sono viesse.



sábado, 19 de maio de 2012

Os Cavaleiros do Apocalipse



     Último treino na tão rodada estrada Campinas-Mogi. Não irei mais para aquelas bandas, nem antes e nem depois do Ironman. Acabou! Mas tínhamos que fazer bem feito, fechar com chave de ouro. Formamos então um pequeno grupo, quatro membros: André Nogueira, Murilo Barizon, Bruno Zouain e eu.

     Éramos pra sair às 7:30 horas, mas apenas Bruno e eu estávamos à postos no horário. Muru chegou um pouco depois e, bem depois, o Dedé deu o ar da graça. Atrasados sim, desanimados jamais. Montamos nossas magrelas e partimos para missão. O que era para ser um pedal tranquilo, se tornou algo indescritível. Já no primeiro metro de rodovia passávamos dos 45 km/h. Alucinante! Os quatro cavaleiros do apocalipse marchavam para cumprir sua missão.

    Muru, a Peste: conduzindo sua Felt branca, com um pedal conciso, formava a primeira fila do pelote. Um cara de sorriso fácil e um repertório sarcástico, nada passa impune aos seus olhos e ouvidos. Um singelo comentário, uma vacilada e pronto, ele não perdoa. Garantia de boas risadas, mesmo em momentos de extremo estresse e esforço.

     Zoin, a Guerra: com sua Guerciotti rubro negra, está sempre pronto para um desafio. Parece não haver limites intransponíveis. Seja na água ou em terra, a competição está presente e a palavra "derrota" não pertence ao seu vocabulário. Dotado de uma força descomunal, é capaz de fazer frente a qualquer um que cruzar seu caminho. Sua presença em um treino é certeza de muito sofrimento e exaustão.

     Dedé, a Fome: montado em sua Kestrel preta, uma vez iniciado o treino, só se tem a chance de conversar com ele mediante esforço extra. Encabeça o pelote e de lá não sai mais e, em hipótese alguma, é ultrapassado. Agraciado por uma formação muscular impressionante, atinge médias que muitos almejam e, sem o menor pudor, é capaz de te fazer comer poeira à menor de uma tentativa de ataque. Parece sentir prazer em enfrentar as forças da natureza, encarar o vento de frente. Para favorece-lo com o vácuo, apenas indo de moto!

      Thiago, a Morte (ou seria o morto?): pedalando um Quintana Roo cinza, tinha como treino apenas duas horas de ciclismo com qualidade, afinal estamos a uma semana do Ironman e em fase final de polimento. Porém, acompanhado pelos senhores acima citados, nada me restava a não ser tentar acompanhá-los enquanto conseguisse. Sabendo ser o mais fraco de todos, raramente subia à ponta, me mantendo na parte final da formação.

     Pois bem, e não foi só o primeiro metro que marcou uma grande velocidade. O segundo, o terceiro, o décimo... Íamos em um ritmo frenético, a ponto de nossas tentativas de sinalização se tornarem inúteis. Seria mais fácil termos setas, pois, quando mencionava-se estender o braço para informar a direção, já havíamos passado. Nas subidas (figuras constantes no percurso) o ritmo caía e atingíamos a insignificante marca de 27 km/h (na verdade eu atingia, pois a Fome não deve ter abaixado de 40km/h e os demais continuavam no encalço). Formação dois a dois, Bruno solta um "38 de média!". Estávamos quase em Holambra e uma média que, para mim, era comum em plano. Ficou uma certeza: "vai dar merda!".

     Seguimos, além do pontilhão de Holambra, por mais uns 15 quilômetros e então entramos no retorno. Pausa para aliviar as tensões, checar as provisões e, não havendo necessidade de pararmos em um posto, voltarmos direto para Campinas. Readentramos na rodovia e o ritmo foi reposto. Aproveitando o trecho plano que estávamos, me mantive perto do grupo. Então chegou a primeira subida e com ela meus problemas.

     Flertando entre a limitação física e os traumas psicológicos, o certo é que, do pontilhão de Holambra até o pedágio, sofro de uma forma descontrolada. É como se o sistema quebrasse, parasse de dar certo, pifasse. Sou incapaz de lembrar uma vez que fiz tal trecho de forma exemplar. Por que então hoje, com 38km/h de média, seria diferente?

     Não seria. Eles abriram uma distância considerável e, como se duelassem pelo primeiro lugar, focaram o olhar à frente e partiram. Sem ter o que fazer, mantive o ritmo que conseguia àquela altura, rezando para que a descida chegasse logo. Se tudo que sobe, desce, aquela era minha chance. Quase simbioticamente, encaixei-me à bike e tentei obter a melhor aerodinâmica, o que me possibilitou tirar um pouco da diferença.

     Porém mais uma subida surgiu e, com ela, outra em seguida, o que me fez perdê-los novamente. Já estava muito cansado, muito além do que precisava para o dia, preocupado com uma possível lesão como resultado de um esforço demasiado. "Colocar tudo a perder? Jamais!". Contive o ímpeto de alcançá-los e toquei de forma branda até o tal pedágio.

     Pronto. Com se saísse de uma bolha, um campo que estivesse a sugar minhas energias, senti meu corpo ressurgir, minhas pernas responderem aos estímulos, minha cabeça bloquear os maus pensamentos. Conseguiria, a partir dali, continuar com eles até o fim. E fomos por mais 9 quilômetros. Os outros três pareciam não ter treinado ainda. Continuavam a pedalar forte, conversando entre si e rasgando o asfalto. Eu me conformava em tentar acompanhá-los, em silêncio, pois era possível que, na tentativa de dizer algo, a energia despendida no ato me fizesse deixar de pedalar. Assim chegamos ao ponto de separação, eles para o Taquaral, eu para Barão. Nos despedimos e eu, reduzindo bruscamente o ritmo, toquei para casa. Fim do meu último treino de estrada rumo ao Ironman. Foi bom enquanto durou!

  

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fechado para balanço

  

   É isso, dez dias para o Ironman. Fisicamente não resta muito a fazer, apenas tentar conservar tudo que foi construído ao longo do último ano até o dia da prova. E, oscilando entre a euforia e o nervosismo, me peguei analisando todo o processo de preparação que uma prova dessa requer, do dia da inscrição até o momento da largada. E a conclusão é sinistra!

     A correria para se garantir no evento já não é novidade por aqui. Meu Deus, como esquecer a agonia de descobrir (um pouco tarde!) estar no link errado, com fuso diferente e, doze minutos após a abertura das inscrições, já não ter mais vagas pelo site nacional? Acordar às 5 da manhã para tentar fazer pelo sito gringo e não ter o limite? Sair de casa Às 6 da manhã, acordar outra pessoa quase a implorar para que fizesse a inscrição? E, depois de quase 10 horas, enfim ver meu nome confirmado no evento. Se algo começa dessa forma, imagine como vai terminar!

    Daí em diante vieram os treinos. Primeiro sozinho, depois com um técnico de verdade. Grande Márcio Lazari (o coach), responsável não apenas por fazer planilhas, mas por formar atletas, sempre pronto para oferecer uma palavra, seja ela dura ou branda, porém objetiva. Ao longo de nove meses viemos aprimorando nossa relação e, o que começou como algo comercial, profissional, virou uma amizade. E dos treinos, o que fica?

      Sem sombra de dúvida, a palavra que rege a preparação para um Ironman é disciplina. Não é fácil manter a rotina de treinos sem um controle exato de todas a horas do dia. Acordar às 5 da manhã, nadar em piscina descoberta em pleno inverno campineiro, sacrificar todas (sim, TODAS!) as noites de sexta e manhãs de sábado em prol dos treinos, visitar as Mogis todo sábado e ainda manter a rotina de trabalho, estudo e, se der, um pouco de lazer. O mais interessante? Quase sempre com prazer (sim, porque ninguém é perfeito!). E o que  te faz se manter motivado por tanto tempo? Mas que a busca pela realização pessoal, é, a cada treino, olhar para os lados e ver mais um bando de loucos na mesma jornada. Forma-se um clã e damos força uns aos outros. Aprende-se muito nesse meio, pessoas importantes ficam pelo caminho, novos grandes amigos são conquistados e todo o sistema entra em equilíbrio. 

    Agora, perto do fim, chega a hora de pensar a logística da prova. Revisar bike, verificar todo o equipamento a ser usado no dia da prova, comprar os itens faltantes, suplementos....São cinco sacolas ao longo prova. "O que colocar em cada uma?". Calcular o quanto de carboidrato a ser consumido por hora, o quanto de sal, o quanto de água, como dividi-los, qual ponto de reabastecimento utilizar... Nossa, muita coisa! Imagine ter que somar a comida para atingir a marca proposta para uma hora de atividade. Para mim, loucura! 

    E assim passo minha última semana. Tenho três folhas de papel à minha frente, cada uma contendo um tópico: "sacolas da prova', "combinação alimentar (comer + beber)" e "toda a logística". Volta e meia me pego a riscá-la: "será que como essa batata aqui? esse gel vai bem com esse pão? por quanto tempo ficarei com essa garrafa de Gatorade?" Nada fácil.

     Mas agora já temos quase tudo sob controle. Ajustes finas, última visita aos Mogis no sábado e, já na quarta, partimos para Floripa. Posso afirmar, após tanto tempo, que o papel de um técnico foi fundamental, pois cumprir a planilha é a parte fácil da coisa! Lendo a respeito do Ironman, vi alguém citar "deveríamos chamar 'natação.ciclismo.corrida.nutrição'". E é por aí mesmo, pois um erro nutricional no dia da prova (ou até no dia anterior) e você põe tudo a perder. Se a minha estratégia vai dar certo? Não sei. O certo é que li muito, conversei com minha nutricionista, com meu técnico, montei uma boa bagagem e agora é por em prática. Esperar o grande dia e fazer dele um momento de alegria, aproveitando ao máximo e torcendo para nada dar errado. Boa sorte para mim! Boa sorte para nós! 


sábado, 12 de maio de 2012

Persistindo

   

     Uma semana! Esse foi tempo que passamos planejando o treino deste sábado. Recrutamento de pessoas, horário, local de encontro, tudo para conseguirmos reunir o maior número de participantes. Após um hiato de 5 dias, estava louco para voltar à estrada. Ansiedade, euforia, sensações que se confundiam ao longo da semana, fruto de uma espera. Era o retorno, tinha que dar tudo certo.

     Os dias se passarem e, enfim, chegou sexta-feira. As mensagens "bombavam" na internet, todos alucinados pelo encontro da manhã seguinte. Última checada na bike antes de dormir, preparativos para o treino, equipamento e vestimento ok, poderia me entregar a uma merecida noite de sono.

     O plano era simples: acordaria mais cedo e iniciaria o treino antes. Saindo de casa às 6, rodaria uma hora até o horário marcado pelo grupo. Faltam apenas 15 dias, agora os treinos são carregados com precisão, atenção aos detalhes. Cada sessão é regida pela palavra "qualidade". Não é hora de gastar energia à toa, mas priorizar uma boa execução. Seguindo o planejamento, cumpriria à risca minha planilha. Certo que havia deixado tudo em ordem, fui dormir.

     Então, meio perturbado, sob efeito de um remédio para gripe, tive a nítida sensação de que algum som adentrava minha mente. Estava sonhando? Parecia muito real e, como se não quisesse acreditar, fui recuperando os sentidos e pude observar que, a exatas 3 horas do início do treino, forças maiores conspiravam contra nosso planos. Chovia, e chovia muito! Seria impossível (e imprudente) nos lançarmos estrada afora. Fiz o que restava fazer: voltei a dormir e esperei que passasse.

     O despertador então tocou: 5:40 da manhã. "E o tempo?". Nada, ainda chuvoso. Permaneci deitado, pairando entre os sonhos e a realidade. Então, a primeira mensagem. Um dos que fariam o treino indagava sobre as previsões. "Parece que não vai ser hoje!". Realmente nada levava a acreditar no oposto. Mais uma cochilada e o segundo telefonema. Mais um. Dessa vez a conversa tomou outro rumo. Luisão e eu decidimos que ficaríamos à espera de uma trégua para tentar realizarmos o treino.

     E ela veio. Quase dez horas da manhã, já sem chuva, mas com o chão ainda bem úmido, decidimos que valia à pena tentar. Troquei de roupa, arrumei a bike e, quase partindo, resolvi observar mais uma vez pela janela. O dia estava cinza, carregado, como se estivesse à espera daqueles que tentassem desafiá-lo. Correria o risco, mas por via das dúvidas, coloquei uma blusa de frio, certo que não seria zelo demasiado.

     Nos encontramos no ponto pré estabelecido e partimos para estrada. E, logo nos primeiros metros, ficou claro que o dia seria longo. Ao sairmos da primeira curva, como se estivesse escondido atrás do muro de proteção, um vento alucinante começou a soprar contra. Era como se não quisesse que continuássemos. Estava empenhado em fazer-nos desistir. "Não tão cedo". Seguimos adiante, descidas resistidas, subidas quase em velocidade de caminhada. Não era o retorno que esperava, mas resolvi usar aquele momento a meu favor. É sabido que em Florianópolis o vento castiga, e muito, no ciclismo, além de ter quedas bruscas de temperatura. "Estaríamos então em processo de aclimatação?" Poderíamos dizer que sim! Luisão, já conhecedor da prova, confirmava com um sorriso marcado, digno de alguém que carrega as marcas deixadas por uma prova dessa magnitude. "Quem disse que iria ser fácil? Isso é Ironman, meu filho!". 

     "Nada é tão ruim que não possa piorar". Frase típica de pessoas pessimistas certo? Talvez, mas foi a primeira coisa que pensei quando, ainda em Jaguariúna, olhei para baixo e vi meu pneu traseiro murcho. "Só faltava essa!". Paramos, desci da bike e vi que, mesmo vazando, parecia um firo pequeno. Resolvi encher o pneu e seguir. Valeu a tentativa, mas não passamos de Holambra. Fui obrigado a parar (novamente) e, dessa vez, trocar a câmara de ar. Fizemos todo o processo e retornamos para a pista. Primeira subida, Luiz puxando, eu olha para baixo e o que vejo? Sim, pneu furado de novo. Não, impressionante. Havia feito uns 500 metros apenas com aquela câmara. Começava a creditar que seria melhor ter ficado dormindo. Tentei tirar os maus pensamentos da cabeça. Lá embaixo, quando estiver valendo mesmo, será tudo um jogo mental, qualquer pensamento negativo e você põe tudo a perder. Mantive o foco, fiz a troca e seguimos.

     Parecia que dessa vez tinha dado certo. O pneu, meio murcho sim, mas não furado, dava sinais que não seria necessário me preocupar com ele novamente. Já o vento... continuava implacável. Era como se estivesse se deliciando ao castigar dois desaforados, que persistiam em uma peregrinação por ele proibida. Ainda bem que estava acompanhado. Se estivesse sozinho, talvez cedesse à pressão. Porém, era confortante olhar para o lado e ver que não estava sozinho. Havia ali mais um demente dando a cara à tapa e seguindo adiante. Senti-me contagiar novamente, reenergizar. Seguimos com o plano.

     Decidimos que pedalaríamos até Mogi e retornaríamos. Antes do retorno, uma parada no posto policial e mais uma inflada no fatídico pneu (não havia enchido o suficiente). Pegamos o retorno e então surgiu a pergunta: "E o vento, faria o retorno também?". Já experimentara tal situação, encarando ao longo de todo o percurso e, por isso preferi aguardar que apontássemos do outro lado da estrada para saber. E, como se penetrássemos em uma bolha, um túnel, um ambiente completamente fechado, o vento parou. Nem uma brisa, nada! Era como se recebêcemos uma bonificação por termos chegado ali.

     Mais que depressa, propus aumentarmos o ritmo. Não sabia o quanto duraria aquela calmaria, mas tinha certeza que deveríamos aproveitá-la ao máximo, percorrendo o maior trecho possível naquelas condições. Estávamos extasiados, ainda não acreditando em tamanha sorte que tivemos. O pior havia passado, a realidade era outra, o pedal fluía naturalmente. Até o céu parecia mudado, com um Sol tímido tentado se desvencilhar das nuvens. Definitivamente estávamos sendo agraciados!

     Em condições tão favoráveis não poderia ser diferente e, rapidamente, já havíamos percorrido metade do caminho de volta sem maiores problemas. Em meio a muitos aclives e declives que delineiam a região, e um tráfego leve, mas considerável de carros e caminhões, ouvi um estalo. Soou com um objeto metálico chocando-se com o chão. Estranhamente, tal ruído me pareceu familiar. Rapidamente levei a mão ao bolso da camisa e me dei conta que algo havia sumido: minha bomba. Semana passada esquecera-a em casa, o que me fez abortar o treino, hoje já havia necessitado de seus serviços por duas vezes. Não podia simplesmente deixá-la para trás. Fiz meia volta (quase terminando uma subida, Que dó...) e voltei à procura. O Luiz, que à essa altura já devia estar querendo me matar com tantas paradas (desculpe-me Luizão!!), ficou se entender nada, mas veio atrás. Fui até a base da "montanha" e nem sinal da bomba. Então, já em subida, percorrendo com os olhos todo o acostamento, como se mapeasse a área, visualizei o tal objeto metálico. Recoloquei-a no lugar e partimos, na esperança de só parar em Campinas.

     E assim fizemos os últimos 10 quilômetros de estrada, sem muitos problemas "naturais", com um ritmo aceitável e já nos aproximávamos do ponto de separação. A partir dali, cada uma par seu canto. Nos despedimos. Ele seguiria rumo ao Taquaral e eu pegaria a Dom Pedro. Peguei o acesso e, como se estivesse vivenciando um dejà vu, senti um solavanco contra a bike. Quem voltara para me acompanhar até o fim de minha jornada? Sim, o próprio. Sem perdão, e disposto a fazer dos meus últimos 7 quilômetros algo inesquecível, ele me empurrava para trás. Podia sentir suas mãos em meus ombros. Eu, já arqueado de tanto cansaço, remava para conseguir completar a última subida do dia.E pronto. Agora era descer. Descer com ou sem forças contrárias. Dali em diante não precisava mais me preocupar. Era só chegar em casa e daria fim a mais um treino. Sim, foram muitos percalços, forças da natureza pareceram empenhadas em desiludirmos. Era como se estivessem acomunadas com o diabinho da preguiça, construindo logo cedo o ambiente perfeito para uma bela amanhã sob os edredons. Mas faltando tão pouco tempo, qualquer pequeno obstáculo que conseguimos transpor, reflete de uma forma avassaladoramente positiva. Nos motiva, deixa-nos confiantes. O grande dia está chegando e, com ele, uma série de desafios e dificuldades. Mas também haverá muita diversão. E o melhor de tudo: em momento algum se estará sozinho.Quando alguém pensar em abaixar a cabeça, olhará para o lado e verá mais mil, novecentos e noventa e nove pessoas sofrendo junto. Poderá dali buscar inspiração, acreditar que consegue e continuar. É, realmente ninguém falou que iria ser fácil. Que venha o grande dia!

domingo, 29 de abril de 2012

Tropa de Elite



     Era para ser apenas mai um sábado ensolarado, porém o dia 28 de abril já começava com um ar diferente. Entrávamos na contagem dos trinta. A partir dali seriam trinta dias até o Ironman. Uma pressão gostosa de se conviver quando as metas envolvidas estão envoltas em prazer. Para enaltecer ainda mais a data, tínhamos um treino diferente, especial: a equipe iria treinar no velódromo de Americana.

    Para alguns apenas mais um treino ali, para outros tudo novo. Pedalar em um espaço próprio, técnico, específico para ciclismo era empolgante. Não saíra de casa esperando entrar em um ginásio fechado, com uma pista montada com tecnologia de ponta. Sabia que caminhava para a realidade brasileira e não me surpreendi ao me deparar com um concreto, arduamente liso, mas com algumas pequenas rachaduras, ditando o caminho, delineado por faixas desbotadas, fruto da dualidade Sol e chuva. Ainda sim a adrenalina continuava alta. Iria experimentar o brinquedo novo, após os ajustes técnicos, pedalaria com boa parte da equipe e, após uma breve olhada na programação do dia, ficara claro que o trabalho renderia.

     Enfileirados, como se estivéssemos em um desfile de apresentação, um a um descemos para pista. Cada um conduzia ao lado trazíamos ela, o centro das atenções, o objeto de desejo e admiração, as estrelas do show, máquinas que fazem de nós meros coadjuvantes. Realmente estávamos muito bem amparados no quesito bicicletas. Uma breve explanação do nosso técnico Marcinho e chegara a hora dos cavaleiros montarem aqueles puro sangue e começarmos a trabalhar.

     Iniciamos com um aquecimento de 20 minutos. Estava literalmente no zero: em processo de adaptação com a bike, em um espaço totalmente desconhecido, quase elíptico e, o que era pior, com desnível em curvas. Pedalar ali era retomar os primórdios de minha vida acadêmica. Estava a colocar à prova alguns conceitos físicos até então muito mais teóricos do que práticos. Falar de força centrípeta dentro de um veículo é moleza, duro é senti-la em uma curva de 180 graus, onde a sua bike é arremessada em uma rampa de uma altura assustadora. Entra então o segundo teste: força de atrito. Como acreditar que conseguiria escalar aquela parede sem despencar lá de cima? Melhor frear! E em meio ao bombardeio de informações do momento, nos reunimos para iniciarmos o treinamento propriamente dito.

     Série 1: duas voltas + um tiro de 200 metros. As duas voltas seria para ganhar giro, velocidade e os últimos duzentos metros deveriam ser feitos na máxima velocidade. Já fui lá para trás da fila. Primeiro queria vê-los em ação, tentar aprender algumas técnicas, ganhar confiança (ou não!), enfim, enquanto pudesse, esperaria. E as voltas começaram. Alguns se mostravam familiarizados com o espaço, outros pareciam travados, formas diferentes de se fazer o teste. Resumindo, seria do meu jeito. E fui.

     Aproveitei bem as duas voltas. Tentava achar a marcha que faria, se cliparia ou não, como procederia no momento exato. Preferi não clipar, pois não estava à vontade para passar forte e fechado na curva. Achei mais prudente segurar no guidão e deitar-me na bike. Abri os 200 metros forte, fiz a curva e finalizei. O tempo? Não sei. Juro! Esqueci de perguntar, mas isso não era o importante. Sabia não ter feito grande coisa. Fomos confrontados sobre a sensação do teste, que achou ter feito o melhor, quem perdeu potência no final, quem achava que poderia fazer mais. Quase nenhum de nós estava contente. Entrou o personagem do técnico. Explicando a forma correta de se fazer o teste, a importância do giro do pedal, a necessidade de se usar a rampa. Sim, deveríamos em um dado momento jogarmos a bike no ponto mais alto e atacar de lá a largada. Mais física no dia! Era óbvio que sairíamos mais veloz assim. "Quem quer tentar outro tiro?" disse Márcio. "Eu não" pensei. Dois foram: Marcelo Filé e Murilo Barizon (o "gringo de Itapira"). O doutor Murilo mostrou ter absorvido os ensinamento brilhantemente: fez suas duas voltas de aquecimento e, antes de abrir o tiro, subiu muito alto com sua bike e, tendo a performance sendo narrada a nós pelo Márcio, conseguíamos captar os mínimos detalhes daquela volta que beirava a perfeição. Resultado: melhor tempo do dia. Hora de irmos para a segunda série.

     Série 2: iríamos rodar em dupla, com velocidade pré determinada, revezando a "cabeça" a cada volta. Um exercício para aprendermos, mais que andar na roda, a nos comportarmos em grupo, sabendo aproximarmos e recuarmos sem adentrar nos espaços laterais, comprometendo outros companheiros de treino e competidores. Série simples e sem muita emoção.

     Chegado a grande momento. A série 3 era composta por um contra relógio de 30 minutos, individual, sem vácuo, onde daríamos o máximo. Já tínhamos uma hora de treino, o velódromo não era mais um ser estranho para mim, a física ali presente estava compreendida e sentia-me bem para fazer uma boa volta. Cada um marcando seu tempo, partimos. 

     Sem o ciclocomputador o treino todo e com meu Garmin em uma posição desfavorável de se ver, percebi que não saberia com quanto de média estava rodando. Fiz a primeira volta, a segunda e então fui ultrapassado. "Bora playboy", disse o Donga. "Oh loko, aí não". Apertei um pouco o ritmo. Sabia que estava aquém do que podia render, mas não queria forçar muito. Encaixei um bom ritmo e, sem muito esforço, comecei as ultrapassagens. Sempre que podia entrava na rampa e me jogava de lá. Delícia! O que já estava rápido, aumentava! E assim fui tocando quando, sem demonstrar nenhuma feição de esforço, vejo o Dedé passando ao meu lado. "Puta alemaozinho forte!". A essa altura já estava rodando a 40 km/h e o rapazinho nem tomou conhecimento. Continuei forte, peguei o Donga, paguei a volta e então de novo. Mais uma do Dedé. "Não é possível!". Já dera 3 voltas em alguns, 2 em outros e, quase acabando o treino, tomei outra volta do Dedé. O pior era vê-lo com a mesma cara de quando começamos o aquecimento pela manhã. Simplesmente não demostrava cansaço. 
     Fechamos a série, fizemos um soltinho de 10 minutos e encostamos as bikes. Era hora de recarregarmos. Reposição hídrica, suplementar, o coach parabenizando todo mundo, dei uma checada no Garmin para saber da média. Chocado, vi que tinha colocado 38,6 km/h no total e de uma forma controlada. Um resultado espetacular para mim. A molecadinha veio comentar e tudo. Legal ver que estamos progredindo! Me meio à conversa fiada, chamada de leve do Marcinho para a última parte do treino: a corrida. Trinta minutos (interno ou externo). 
     Dedé, Donga, Dr. Muru e eu optamos por desbravar a cidade de Americana.Óbvio que correndo com esse tipo de gente, a corrida não seria moleza. Dois a dois seguíamos pelas ruas da cidade, em meio a carros e pedestres, atravessando ruas e pontes, em um ritmo alucinante. Bateu a curiosidade e resolvi consultar o pace que estávamos. Um susto ao ver que rodávamos a 4:20 por km. Era bronca na certa do Marcinho! Fazer o quê? Agora era acompanhar e finalizar o treino. Fizemos 15 minutos pela cidade, voltamos para o velódromo e acabamos, já em um ritmo mais tranquilo, por lá.

     Fim do treino, início de mais um ciclo. Um dia bem motivante, cheio de boas notícias, bons resultados. Agora é completar o programa de treinamento e partir pra Florianópolis. Arrumamos nossas coisas e cada um deu seguimento ao seu feriado. Missão cumprida. Era hora do bando se separar. Até a próxima missão!


     

domingo, 15 de abril de 2012

Fase de teste


     Ainda lembro como surgiu em minha vida. Coisa de segundo grau, encaminhando para prestar um vestibular, hora de começar a testar os conhecimentos de uma outra forma. Não eram mais as provinhas de cada matéria, feita em horário de aula, agora o método seria o mesmo com o qual nos depararíamos logo à frente. Marcado em horário especial, geralmente sábado, englobaria todas as matérias da grade e seria repleto de itens que deveriam ser julgados verdadeiros ou falsos. Ocupava um período de um dia e era chamado simulado. Basicamente é onde somos colocados à prova, testamos nossos conhecimentos, vemos onde estamos fracos, em que conseguimos progredir, enfim, é a hora em que podemos errar, falhar e melhorar.

     Pois bem, alguns anos depois me deparo com mais um simulado. De triathlon sim, mas não menos duradouro do que os acadêmicos e, claro, sempre em um sábado ensolarado. Ossos do ofício. Seria a oportunidade de aplicarmos tudo que viemos treinando, sentir o swim.bike.run da devida maneira, experimentarmos algum incremento, descobrir falhas, avaliarmos como realmente estamos para o grande dia.

     O planejamento era simples: 2000 metros de natação, 4 horas de pedal e 2 horas de corrida. Olhando o planejamento já se tem noção da extensão da brincadeira, mas a jornada para um treino desses começa bem antes.

     Vinte para cinco da manhã, pleno sábado, sou abruptamente agredido pelo despertar de meu celular que, como se em meio a um ataque de fúria, emite gritos pelo quarto e desvencilha-se de minhas mãos que, cegamente, tentam silenciá-lo pelo bem maior. Após alguns minutos, já recuperado do susto, me levanto e parto para o primeiro café da manhã do dia. A parte estrutural já está toda organizada. Sabiamente já havia feito a checagem na bike, separa todos os utensílios de cada modalidade, organizando-os por ordem de retirada da mochila, preparado a parte suplementar, alimentar e de hidratação, restando-me para a manhã apenas o café da manhã, a troca de roupa e a partida. Marcinho (meu técnico) marcará às 5:30 e já às 5:28 hs estava estacionado na porta de casa. Carregamos o carro e partimos. Pausa para recolher o restante da galera participante e pé na estrada. Destino final: Represa de Nazaré.

     Pegar carona com o Marcinho vem se mostrado uma oportunidade única para boas risadas. Em meio a assuntos técnicos ou um pouco mais sérios, sempre caímos em uma piada e as gargalhadas são garantidas. Faz com que o tempo passe rápido e, sem muito esforço, nos vemos estacionando no local combinado. Uma singela confraternização entre os presentes, montagem das bicicletas, equipamentos para transição, roupa de neoprene já no corpo, últimas recomendações sobre o funcionamento do simulado, pé na água, óculos nos olhos, largamos.

     A natação, por incrível que pareça, vem sendo a parte prazerosa de se fazer. Ainda sabendo se tratar de uma competição, o estar horizontalizado, cercado de tantas pessoas e ao mesmo tempo sozinho em  pensamentos, ritmados apenas pelo som da inquietação da água, vendo trazendo uma sensação de paz indescritível. Relembrando o drama das primeiras piscinas, do medo da modalidade e a desconfiança nos 3800 metros, é possível ver o resultado de tanto esforço ao longo dos últimos meses. Envolto em tão bons pensamentos, concluímos a trecho d'água em 30 minutos. Marcinho sustentava o deck para uma melhor saída. Falei meu tempo para ele e parti para a transição. Ali nos despedíamos. A parte terrestre seria por conta própria.

     Já na transição, um dos participantes orquestrava um pequeno escândalo por não ter água disponível para que enchesse sua caramanhola. "Quando for assim, avisa que a gente traz de casa". Santa inocência! O rapaz já está a algum tempo no meio e sai de casa sem água? Inadmissível! Sou novo na modalidade, mas meu jeito metódico facilita muito a organização de um evento assim. Saiu de casa com um isopor, onde levo água, gatorade, suco, comidas... uma "farofa"! Fácil zoar, mas nunca passo fome ou sede e ainda me dou ao luxo de, se quiser, reclamar ao final do evento! Deixei o pequeno com síndrome de "estrela" falando sozinho, peguei minha bike e parti.

     Seriam 4 voltas de 30 km. Estávamos em quatro: Sérgio e eu puxávamos e os outros dois vinham atrás. Minha proposta era ficar de cara para o vento, remar sozinho, sem colar na roda. Ficava a observar os demais com equipamentos de primeira linha, escondidos atrás, apenas aproveitando o vácuo. "Beleza, vão dar o bote no final" pensei. Estava em fase e experimento: era a primeira vez que levava comida para o treino. Fatias de pão integral embebidas em mel... néctar dos Deuses. Como isso é capaz de dar prazer quando se está sob duras penas. Seguimos. Duas voltas e nada. Pararam para reidratar (acho) e eu continuei. Agora, sozinho, sabia que poderia administrar melhor: iria puxar a terceira volta e soltar na quarta para correr descansado. Apertei, já sem ninguém à frente, fiz o retorno e observei que já abrira uma vantagem de alguns 8 km. Abria a quarta volta e, revezando entre fatias de pão, géis e barras de proteína, entreguei a bike com 3 horas e 46 minutos. Comecei a troca e, em pouco mais de 2 minutos, saía para correr. Sabia que tinha meia hora a mais de corrida que todos ali, então era interessante ter aberto vantagem.

     À essa altura já passávamos de meio dia e o amigo Sol castigava bravamente aqueles que permaneciam em pé. Saí muito bem pra correr: passo curto, ritmo controlado, frequência baixa, tudo como manda o figurino. Primeira grande falha: levei apenas uma garrafa de isotônico. Antes de 3 km de corrida já havia secado a mesma e, o que a princípio, seria uma corrida de 10km + 10 km, tornou-se uma de 5km + 5 km para reidratar. Dez quilômetros em 58 minutos, com direito a chuva e tudo, enchi uma caramanhola e parti para mais 10 km, mas dessa vez em meio à mata que circunda a represa. Segundo erro.

     Correr em trilha é diferente, as exigências são outras, os reflexos também, o impacto na musculatura então... Adentrei a mata, chão de terra, lameado pela chuva recente, exigia uma atenção maior. Correr tendo a represa ao lado, respirando um ar mais puro, proporcionava um prazer momentâneo de primeira qualidade. Subia descia, curva para direita, curva para esquerda, subia de novo... olhei no GPS: 1,5 km. Parecia já ter corrido por mais de trinta minutos, minha água já se misturava ao fundo da garrafa. Tive a nítida sensação que  o tempo e a distância não respondiam ali da mesma forma que estamos acostumados. Continuei correndo. Queria fazer 5 km e voltar, fechando assim meu treino. Rodei, rodei, rodei, olhei o GPS: 2 km. Pronto, era pegadinha! Parecia, ao adentrar ali, ter assinado um pacto com o diabo, cheio de prazeres momentâneos, mas com conteúdos nas entrelinhas que o fariam arrepender de tal decisão. Havia sido enganado. Estava sozinho, no meio do nada e, por mais que corresse, insistiam em me dizer que não me deslocara o quanto imaginava. Prevendo a segunda escassez de água do dia, retornei com 2,68 km. Passei pela tenda de apoio, recarreguei-me de água, bebi um copo de malto e fui. Dessa vez voltaria para o asfalto, pois já conhecia o percurso.

     Foi como se tivesse irritado o "coisa ruim". Sentindo-se enganado pelo meu retorno antecipado na mata, resolvera dar as caras. Ao sair para a estrada, foi como se corresse em um tapete de lava. Um Sol escaldante sumira com todas as nuvens de chuva que até bem pouco tempo encobriam o lugar. Sentia a sola do pé esquentando, o corpo entrava em processo de cozimento. Com o planejamento de fazer apenas 3 km e retornar, percebia que talvez as coisas saíssem do controle.

     Disputando gota a gota com o calor, tentava me manter hidratado. Me sentia lesado vendo meu volume d'água diminuir e minha sede aumentar. Repetia para mim mesmo que retornaria com 18 km, tentando manter-me motivado, mas a essa altura me encontrava, já para mais de uma da tarde, correndo sozinho em uma rodovia e em péssimas condições climáticas. Não que estivesse cansado, mas percebia ali um desgaste desnecessário para o momento. "Se estivesse valendo, correria 18 km?". Sim, correria até os 42 km se fosse o dia, mas não daquele jeito. Já beirava as 6 horas propostas de bike.run, estava fisicamente confortável, achei melhor retornar. Com 16,5 km regressei à base. Corri até o quilômetro 18, bebi minha última gota de água e caminhei os tão santos 5 minutos.

     Cheguei na tenda, todos já haviam encerrado suas sessões. Peguei meu isopor, fiz toda a parte suplementar planejada, passei na tenda para beber (mais) água. Cada gole um "ahhhh". Que delícia, que saudade... deliciava-me com o momento, revezando entre um copo de malto geladíssima, água, frutas e petiscos. Ingeria tudo que a mão alcançasse à mesa e, por longos 10 minutos, permaneci ali. Sepultada a fome, sem mais demora, parti para aquela que tornara-se objeto de desejo nas últimas 6 horas. Desci a rampa e, sem muito pensar, me entreguei aos encantos de uma água verde esmeralda encantadora. Acolhido tão bem às 8 da manhã, tinha certeza que me receberia de braços abertos. Deixei-me relaxar, como a sensação de dever cumprido, certo de ter realizado bons trechos ao longo do dia, confiante com as próximas semanas de treino, feliz por perceber que todo o tempo e esforço até aqui investidos nessa empreitada, parecer estar dando resultado. Pude mergulhar de cabeça e me reconfortar no silêncio regido pelas profundezas daquelas águas. Era o fim de mais um dia de trabalho.

Links dos percursos:

CICLISMO: http://connect.garmin.com/activity/168612769

CORRIDA: http://connect.garmin.com/activity/168612777
     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Jogos Mentais


 
    "Para estar em guerra, basta ter nascido" (Jürgen Habermas)

    O conflito sempre estará presente. As dificuldades parecem brotar do chão por onde traçamos nosso caminho. Tentam desviar-nos, fazer-nos parar, voltar ao ponto de partida, desistir. A mente humana é complexa, cheia de artimanhas, quase como uma simbiose, repleta de energia, de vontade própria e, se não bem controlada, capaz de dominar a situação e te fazer perder o juízo.

    Ainda como estudante de Educação Física, a psicologia do esporte atraía minha atenção. Fazia brilhar os olhos a muito opacos pelo bombardeio de assuntos morosos. Via ali a chave para o sucesso desportivo, superando preparação física, genética e outros fatores estimados como decisivos para o bom desempenho. Inseri minhas convicções ao meu cotidiano: enquanto técnico de futsal, defendia meus treinos ao meio dia. O Sol escaldante fazia com que a quadra parecesse um rio de lava, pequenos trotes parecia corridas sem fim, mas, quando íamos jogar em horários amenos, não demonstrávamos cansaço, não sentíamos calor, corríamos mais, marcávamos mais, jogávamos mais! A mesma "fórmula" era aplicada aos meus treinos de corrida: buscava sempre correr na hora do almoço, fazer treinos de rampa exaustivos, conhecer o extremo. Ali era o momento de reclamar, de querer parar, de brigar contra meus desejos mais mundanos. Gladiava para obter a vitória. Tinha que ser forte para não ceder às clemências de minha mente. "Por que isso? Chega, vamos para casa!". Correr quinze, vinte quilômetros em uma pista de 400 metros me ensinou a controlar meus impulsos. Antes, sempre muito impaciente, ao primeiro sinal de cansaço, os piores pensamentos nasciam em mim e, sentindo minhas fraquezas, minha cabeça tomava o controle da situação, se apossando de meu corpo e acabando por me derrotar. Agora, volta a volta era possível perceber tal fragilidade desabrochar e contorná-la a tempo. Tornava-me senhor de meus anseios.

    Com minha ida para o triathlon, o ingresso no mundo Ironman, as exigências são outras, o volume de treino também, o grau de dificuldade aumentou e, com isso, a vulnerabilidade. O que fazer quando, em meio a tantas sessões de treino, ainda se tem uma dieta a seguir. Rígida, exata, sem excessos, pouquíssimo chocolate, quase nenhuma cerveja, quantidades certas de alimento. Contar oito uvas? Muito pra minha cabeça! E, como se voltasse a ser criança, o proibido passa a ser objeto de desejo. É sempre assim: a homem sempre quer o que não lhe pertence. A ciência já comprovou o desentendimento pelo "não". "Não faça isso", "não suba aí". São informações descabidas de significado aos menores.Surge então aquela sede de não uma, mas 6 cervejas. Pode? "Não!" Aquele desejo de mastigar uma bela barra de chocolate. Pode? "Não!" Apenas 30 gramas. Isso é um sexto da barra! Não dá nem para salivar. O que fazer então?

    Para controlar todo o meu descontrole alimentar, resolvi, simplesmente, comprar tudo que eu sempre tenho vontade de consumir. "Como assim, chutar o balde?". Não, comprar e deixar à mostra. Chego, abro a geladeira e vejo uma barra de chocolate. "Muito fácil, não quero". Como um truque de ilusionismo, engano minha mente e mantenho-me com o planejamento alimentar adequado. Loucura? Talvez, mas vem funcionando muito bem.

     E a parte do treinamento? Fazendo-os sempre em horários mais amenos, sem exposição ao Sol. O problema é que no grande dia, Ele estará lá assistindo de camarote. Me fará companhia por quase doze horas. Hora de quebrar o gelo: o ciclismo agora é feito um pouco mais tarde, por volta de 8 horas. A corrida então, mais grave ainda. Ontem foram 30 km, saindo de casa ao meio dia. Sob um calor insuportável trotamos por quase três horas Campinas afora. Mais que a forma física, estamos recuperando a forma mental. Agora é a hora de termos maus pensamentos, de fraquejar, e de passar por cima de tudo isso. Para o grande dia reserva-se apenas bons momentos. Vai doer? Sim. Vai estar quente? Opa! Vou sofrer? Muito, mas nada que não tenha passado anteriormente. Lá, a única novidade permitida será o prazer de completar meu primeiro Ironman. Apenas 48 dias nos separam deste momento. Que passem logo!
    

sábado, 7 de abril de 2012

Em cena


   A semana terminou de uma forma inusitada. Há alguns meses seguindo uma rotina que, aos olhos mundanos, chega a ser tediosa, tive, enfim, a oportunidade de sair completamente de minha zona de conforto e contemplar um mundo ao qual não estou tão familiarizado.

    Convidado pelo amigo Jorge Coli a seguir para São Paulo, onde acompanharíamos a peça Dom Juan (traduzida por ele!). Nada mais justo, pois dividi minhas garfadas do almoço com o discorrer do mesmo, mas nem por isso tinha-se um caráter obrigatório! Era um convite de bom grado. Eu aceitei.

      Chegamos ao Teatro Raul Cortês, pegamos nossas entradas e rumamos para a sala do espetáculo. Ainda tínhamos alguns minutos, mas, por ser membro da produção, o Jorge já adentrou à sala ao encontro do elenco. Eu, um pouco acanhado, exite por alguns instantes, mas acabei seguindo-o. Temia encontrar o desconhecido, me deparar com figuras populares, rostos que preenchem as noites das famílias e, sem aviso prévio, me alocar em um ambiente esnobe, ficar deslocado, ser apenas mais um.

    Pura covardia. Fomos recebidos calorosamente. Não era por estar com aquele que havia possibilitado (linguisticamente) o espetáculo. Aquele calor humano, os abraços sinceros, aqueles apertos de mão servidos com sorrisos harmoniosos, me fizeram perceber que habitava uma bolha de preconceitos. O desconhecido as vezes assusta e faz com que, por medo, criemos barreiras e preconceitos com o novo. Me vi cercado de seres humanos cheios de vida e prazer pelo que faziam, receptivos a novos contatos. A noite prometia.

    Nos acomodamos em nossas poltronas e esperamos o iniciar do espetáculo. Sabia como a história se encaminharia, mas estava ansioso para ver a parte artística da apresentação. Composta de um elenco fantástico, a peça conduzia o público sem brechas para pensamentos paralelos. Estávamos entorpecidos pelo clima, pela história, por um cenário que, jogando com efeitos de espelho e luzes, despertava um interesse quase que infantil, puro, capaz de reter sua atenção por algumas horas. Havia perdido a noção do tempo, me perdia entre o discorrer da história e as memórias das aulas de teatro no segundo grau (ah, isso ninguém sabia!!!).

       Fomos conduzidos por mais de duas horas de espetáculo. Já estava apaixonado por uma das atrizes que compunham o elenco: Clarissa Kiste. Meu Deus, que mulher. Nos camarins era apenas um belo rosto, exalando um cheiro suave, arrebatador, mais ainda assim humano. Porém, ao pisar no palco, detentora de uma presença imponente e uma voz grave, cheia de emoção, conseguiu irromper a zona de conforto em que nos encontrávamos. A partir daquele momento, tinha toda a atenção que necessitasse da platéia. 

    O espetáculo seguiu maravilhosamente, fazendo os que ali estavam se entretecem com o espetáculo, sem um momento de desconcentração, deixando-nos certos do valor e talento daqueles que habitavam o palco. Ao final, nada mais justo e esperado que uma salva de palmas de uma de sala de teatro lotada. Magnífico!

    Saímos para jantar com o elenco. Onde? Famiglia Mancini. De repente estava sentado à mesa com todo o elenco de uma peça de teatro, dentre eles inclusive, atores globais como Rodrigo Lombardi e Eduardo Estrela. Àquela altura já não existia uma barreira entre nós. Na verdade, estava encantado com a forma que tratavam todos aqueles que vinham parabenizá-los. Eram de um carinho e atenção invejáveis. Valorizavam o feedback ali presente, sabem que é o que mantém o espetáculo grandioso.

      Foi então que ela, clara, claríssima, Clarissa, começou a discorrer sobre os desafios do ator. Falava sobre o mínimo desconforto causado pela fixação do texto (aos olhos do público, o ponto mais difícil) e a complexidade de se encontrar ali, exposto, brincando com a realidade, tendo que dar continuidade ao espetáculo de peito aberto. Contava-nos sobre os pensamentos paralelos que surgem ao longo do peça, ela e Rodrigo riam sobre as linhas de raciocínio paralelas que surgem enquanto atuam. "O que vou falar daqui alguns minutos?"," Tem uma maça no canto direito do palco", "Tenho que chorar quando ela fizer tal sinal". Falta de concentração? Juram que não. Apenas uma nível de concentração tão elevado, que conseguem atuar e prever movimentos futuros. Embriagava-nos com suas histórias fascinantes, em meio a um belo sorriso e um piscar maroto, delicioso, do olho esquerdo. E então ela falou: " O mais legal é que, quando abre-se as cortinas, não tem mais volta. Dali, só para frente!". 

    Estasiado com tal frase, tracei um paralelo imediato com o esporte: quando estamos comprometidos com uma prova, ou mesmo na execução de uma, temos a consciência de não ter mais volta. Podemos desistir? Sim, mas nunca recuperar os dias de treino, os quilômetros nadados, pedalados, corridos. Ao soar da buzina, corre-se para frente, é de peito aperto que nos atiramos ao mar. Ela explicava como raciocinam em cima de uma fala que está por vir enquanto atuam. Eu pensava em como, em meio a mais de cem quilômetros de bike, refletimos sobre a corrida que está por vir. Ela sobre uma palavra que às vezes insisti em travar a língua, uma cena com uma exigência maior. Eu sobre os primeiros quilômetros de corrida, sobre a barreira dos 36 km. Sabemos que, a partir daquele instante, do terceiro sinal, do som alucinante da buzina, apenas a linha de chegada, o cerrar das cortinas são merecedoras de nossa parada.

      Em meio a uma garfada na bela fulgazza que preenchia meu prato e um gole de vinho, tal semelhança entre realidades tão diferentes me encantava. Chegava à conclusão que o teatro e o esporte são intimamento próximos. Oscilam entre o lazer e a profissão, encantam multidões e, para aqueles que estão diretamente envolvidos, não deixam muitas opções: é conduzir, cada uma ao seu modo até o fim ou desistir. Fazendo uso de um jargão, dava fim a tal analogia: a vida imita a arte!

      Após tamanha reflexão, o triathlon entrou como assunto à mesa e encontrei em Eduardo Estrela um entusiasta. Detentor de uma visão empreendedora, uma clareza de idéias e de falas, iniciamos uma conversa sobre uma modalidade específica e, antes da segunda taça de vinho, já perambulávamos  por políticas públicas, formas sustentáveis de desenvolvimento do esporte e cultura e, claro, o senhor Walter Mancini. Tínhamos idéias e ideais muito parecidos. A conversa fluía tão espontaneamente que, sem perceber, já o chamava de Du. Íntimo! Após ficar estarrecido com tamanho talento dramatúrgico, agora despertava uma admiração ideológica. Sentava-se a minha frente alguém realmente interessante, esclarecida, e melhor, boa de papo!

     Passava de 3 horas da manhã quando pedimos a conta, nos despedimos de todos e, um a um, tomamos nossos rumos. Jorge e eu, claro, não poderíamos ter uma volta normal. Antes de pegarmos a estrada, fomos parados por uma blitz e me submeteram ao teste do bafômetro. Estava tão bem que até o guarda me aconselhou mais uma taça de vinho! Cheguei em casa quase cinco da manhã, cansado dos treinos, mas com a mente fervilhando mediante experiência extraordinária que acabara de vivenciar. Difícil fazer tantas emoções aquietarem e cair no sono. Porém se fazia necessário, uma vez que tinha treino de natação às 8 horas ada manhã. E, tomado por uma cansaço físico descomunal e uma bombardeio de pensamentos e emoções, encostei minha cabeça no travesseiro e dormi.

     Fica apenas a dica para aqueles que foram em São Paulo e região: troquem uma noite de balada e assistam à peça Dom Juan de Molière. Não sei se vocês conseguirão o jantar pós espetáculo, mas garanto que se encantarão com o espetáculo e, para aqueles que estiverem mais dispostos, poderão conversar prazerosamente com todos do elenco e tirar fotos  após o encerramento.